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Como acolher a morte quando estamos programados para celebrar a vida?

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A morte périnatal sempre foi um assunto que me tocou particularmente. Como acolher a morte quando estamos a gerar uma vida?

Ao longo os últimos anos fui confrontada com vários casos de morte intra uterina. Alguns em contexto profissional, outros em contexto pessoal – pessoas conhecidas que passaram por este tormento.

16 semanas, 25 semanas, 33 semanas, 38 semanas. A morte intra uterina pode acontecer a qualquer altura e sem nada que o faça prever.

Ontem pela primeira vez segurei nos meus braços um bebé sem vida. Tinha apenas 17 semanas de gestação, mas já era o centro mundo daqueles pais.

Como é que se ultrapassa isso? Como é que uma mãe consegue parir um bebé, sabendo que esse parto marca o início do fim? Como se consegue  enfrentar a dor de um colo que fica vazio? Dos sonhos que ficam por realizar, das roupas que não vão sair da gaveta?

Antes de conhecer esta realidade por dentro não percebia por que razão se fazia com que aquelas mães passarem pelo tormento de parir um bebé sem vida. Passar por toda aquela dor, amplificada pelas contracções, pelo processo normal de um trabalho de parto para depois ficarem com um colo vazio. Não seria mais facil uma cesariana sob anestesia geral para acabar logo com todo aquele sofrimento?

Mas depois percebi. Percebi que uma cesariana, mesmo com anestesia geral, não acaba com o sofrimento. Percebi que aquele bebé é filho daquela mãe e ela tem o direito de o ver nascer, de lhe pegar, de o amar, de se despedir.

E no meio de todo este tormento, tenho a honra de passar por sítios onde o respeito por estas mães, pais e bebés é imenso.

Os pais são acolhidos, apoiados, acarinhados e respeitados pelos profissionais de saúde.

A mãe pode segurar o bebé no seu colo durante o tempo que precisa. Tudo é respeitado. A dor, as lágrimas, o silêncio. Os pais podem amar aquele bebé nos seus braços antes de se despedirem. Podem despedir-se sem pressas nem pressões.

Ontem aquela mãe chamou-me, para me entregar o seu mundo.

As lágrimas corriam pelo seu rosto enquanto o pai nos observava num silêncio tão pesado que doía. A mãe passou o seu sonho para os meus braços. Um sonho envolto numa manta pequena e macia, com um gorro cor-de-rosa.

Acolhi aquele bebé com o maior cuidado e respeito. Perguntei à mãe uma última vez se podia (levar o seu bebé). Acenou que sim enquanto lágrimas silenciosas e doridas escapavam dos seus olhos.

Nos meus braços segurei um bebé sem vida pela primeira vez. Nas minhas mãos segurei o coração da sua mãe.

Foram poucos minutos, mas marcaram-me para sempre.

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